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Painel Orbi #02 – Youth Mode: liberdade e noções culturais

Painel Orbi Youth Mode

Em geral, as pessoas vivem cada vez mais em relação à expectativa de vida. E vão se transformando ao longo de sua vida, assumindo novos comportamentos e identidades. Apesar dos estudos geracionais, muitas formas de agir surgem e se intercruzam em um mundo globalizado e diverso. Por isso, o relatório Youth Mode traz uma nova concepção sobre liberdade e noções culturais. Ficou curiosx? Então, bora para mais um conteúdo do Painel Orbi!

O branding geracional e a juventude não-etária

A pesquisa Youth Mode: um relatório sobre liberdade foi realizada pela K-HOLE e pela Box1824, em outubro de 2013. Apesar de já ter ocorrido há sete anos, os conceitos e tendências trazidos à discussão ainda se refletem nas mudanças constantes da sociedade atual. 

De início, já somos impactados pela frase de abertura: “a morte da idade”. O que aparentemente parece improvável, ganha sentido quando entendemos que o conceito de juventude se expande para além dos limites da idade e dos números. Nesse contexto, o conceito se modificou e a chamada juventude não-etária demanda emancipação. 

O tempo em que era possível ser especial e exclusivo já não existe mais, isto é, qualquer marca ou pessoa pode viralizar se conseguir sustentar seus diferenciais e manter sua consistência. A pesquisa argumenta que a internet e a globalização terminaram com essa ideia: se um vídeo pode viralizar, qualquer conteúdo acaba também podendo.

Os jovens passam por ritos de passagem em busca da sua individualidade, bem como da sua identidade. Contudo, o branding geracional tem afetado os comportamentos das pessoas, pois coloca responsabilidades e características de determinada faixa etária como uma verdade inevitável. Por outro lado, como aponta a pesquisa, o compromisso com o “fazer parte de uma geração” é apenas parcialmente totalitário.

O que é estar em Youth Mode?

Com o aumento da expectativa de vida, o ser humano nunca viveu tanto tempo. Por isso, acaba passando por diversas fases da vida e enfrentando várias realidade diferentes de mundo. O que não muda nesse contexto, é a necessidade que todos sentem de se adaptar às novas maneiras de viver, conectar, relacionar, independente da idade.

A idade estava amarrada com uma série de expectativas sociais que estavam permeadas por determinados comportamentos e ideais. Porém, o relatório aponta que a demografia está morta, apesar dos futurólogos tentarem inventar outra geração quando precisam. Só que a realidade mudou.

Youth Mode Painel Orbi

Nesse panorama, surge o Youth Mode: a juventude passa a ser entendida como um modo operante, ou seja, uma forma de agir. O estudo fala em estar nesse modo, logo não é ficar revivendo sua juventude, mas sim estar presente e jovem em qualquer idade. Por isso, juventude não é um processo, mas envelhecer é. E quando você está em Youth Mode, você é infinito.

Juventude não é mais sinônimo de idade, mas de liberdade, a qual não é no sentido político. Significa uma emancipação do tédio, do previsível e da tradição. E, dessa forma, ser a pessoa que você quer ser e ter liberdade de escolher. Portanto, importante não é quem você é, pois o desejo de escapar das limitações da vida cotidiana é universal. 

Ser adaptável é a única forma de realmente ser livre, visto que a juventude entende que toda liberdade tem seus limites. Frente a isso, as palavras que caracterizam o estado de Youth Mode são: comprometido com o novo, experimental, crítico ao tempo, ajustável, insurgente, sensível ao coletivo e livre.

Noções culturais

O relatório aborda quatro tipos de noções que são o Alternativo, o Acting Basic, o Mass Indie e o Normcore. Essas formas estão interligadas, conforme a figura abaixo, demonstrada no estudo. 

Fonte: Youth Mode: um estudo sobre liberdade (2013)
Fonte: Youth Mode: um estudo sobre liberdade (2013)

Para o relatório de Youth Mode, vivemos no tempo do Mass Indie. O que isso quer dizer? Que abandonamos a preocupação típica do Alternativo de evitar a uniformidade e elegemos como única possibilidade a celebração da diferença. 

Dessa maneira, o Mass Indie compreende que a cultura é baseada em sobreposições. Diferentes identidades não podem ser mutuamente exclusivas, pois estão sempre gerando novas combinações. Por isso, ser diferente pode ser uma trajetória coletiva em vez de solitária.

Misturando o bizarro com o normal, até chegar no ponto de nivelamento, a cultura Mass Indie tem como eixo a tolerância. Logo, dominar as diferenças é uma maneira de neutralizar as ameaças e adquirir status no interior de um grupo. Por outro lado, pela diferença ser a busca da grande massa, ela acaba se tornando insuficiente e escassa. Nesse contexto, a mudança é catalisada pela ansiedade de não existir um território novo.

Os problemas do Mass Indie e o Acting Basic

Mas a cultura Mass Indie apresenta alguns problemas, como a ideia de parecer um clone. Os detalhes que te definem são tão pequenos que ninguém acaba percebendo que você de fato é diferente.

Como algumas pessoas acabam sendo tão especiais, ninguém sabe do que estão falando e pode acontecer o isolamento. Por fim, pelo fluxo de notificações sufocante, é impossível estar sempre atualizado. Então, surge o problema de passar dos limites, pois os traços de individualidade são tantos e se reproduzem muito rápido.

Por outro lado, para o relatório Youth Mode, o Acting Basic traz a ideia assustadora de ser visto como normal. Se a regra do momento é Think Different, o normal pode significar um retrocesso às suas raízes desinteressantes. Paradoxalmente, o mais interessante é rejeitar a ideia de ser diferente. Assim, ao dominar a diferença, os que se dizem cool acabam se tornando indiferentes e buscam atingir a uniformidade.

Contudo, agir de maneira básica não supera os problemas do Mass Indie, pois esse modo ainda tem como base a diferenciação. Dessa maneira, uma simplicidade superficial pode ser apenas a negação da complexidade e não sua resposta. Por isso, a igualdade não é dominada, apenas abordada através da ilusão da uniformidade.

Normcore: um reflexo apurado do Youth Mode

Enquanto o Mass Indie cria panelinhas de indivíduos que sabem de tudo, o Normcore entende que o grande desafio é dominar o potencial para o surgimento da conexão. Isso se reflete em uma das questões mais interessantes levantadas pelo estudo: uma vez as pessoas nasciam em comunidades e lutavam por sua individualidade. Hoje, elas nascem como indivíduos e devem achar as suas comunidades.

As pessoas em Normcore não fingem estar acima da vergonha de pertencer e entendem o processo de diferenciação através de uma perspectiva não-linear. Por isso, é um reflexo apurado do Youth Mode. Diferentemente do Acting Basic e do Mass Indie, esse modo se distancia de uma noção de cool baseada na diferença e adota um modelo de pós-autenticidade que opta pela igualdade. Logo, compreende que o normal não existe.

Youth Mode Painel Orbi

Normcore é a libertação em não ser tão especial e o entendimento de que só a adaptabilidade leva ao pertencimento. Portanto, as características dessa noção cultural são por meio das palavras: situacional, não-determinista, resiliente, despreocupado com autenticidade, empatia no lugar da tolerância e pós-aspiracional.

Enxergar a realidade a partir dessa noção é saber que as escolhas do consumidor não são irrelevantes, são só temporárias: pessoas se comprometem, mas também são inconsistentes. Todos somos complexos e nem sempre coerentes.

Liberdade e Normcore

O relatório alerta uma nova liberdade, não como um perigo, mas como uma forma mais feliz de viver os dias. Para eles, Normcore é o caminho para uma vida em paz e que nos leva ao prazer e ao contentamento. Assim como, há uma busca por liberdade proveniente da não-exclusividade.

É saber enxergar a graça do talvez, do incerto e, compreender a dicotomia entre ser livre e ser especial. A liberdade em poder ser quem você quiser, sem estar amarrado às concepções geracionais ou de idade.

Para o Normcore chegou a hora de responder apropriadamente e encarar as situações de frente. A interpretação ambígua passa a ser uma oportunidade de conexão, em vez de ameaça à autenticidade. Não se pode mais fingir que simplesmente não viu algo.

Algumas percepções

Os estudos geracionais são fundamentais para entendermos hábitos e comportamentos das gerações que convivem atualmente e das que estão por vir. Porém, vivemos em um contexto tão complexo e diverso que, por vezes, colocamos as pessoas em “caixinhas”. Inclusive, acabamos nos prendendo a essas ideias, esquecendo que a nossa idade ou geração não tem o “super poder” de determinar nossa identidade.

Nesse sentido, podemos recorrer ao autor Stuart Hall, o qual em sua obra “A identidade cultural na pós-modernidade”, entende que o sujeito pós-moderno não possui uma identidade fixa ou permanente. Assim como, há dentro de nós identidades até contraditórias. Logo, buscamos novas formas de identificação ao longo de nossa trajetória, tanto locais, como globais. Dessa forma, a idade também começa a estar em segundo plano quando falamos de estilos de vida, noções culturais e formas de agir.

A partir do que demonstrou o relatório, começamos a nos questionar se estereótipos de idade e de geração ainda fazem sentido. Bem como, buscamos compreender se nossa identidade está de fato cada vez mais fragmentada e/ou volátil. Além disso, será que estaria sendo anulada a partir de um efeito pluralizante e/ou geracional? E claro, a pergunta que não quer calar: somos cada vez mais diferentes e/ou iguais?

Será?

Em um mundo tão diverso, o que é ser normal? Podemos entender que a própria ideia de ser normal também é uma forma de se diferenciar. Ou não: pode ser uma maneira de se uniformizar. Essa busca por diferenciação parece nos fazer procurar uma individualidade tão específica que acabamos nos isolando. Ao mesmo tempo, ocorre a erosão do outro, conforme diz o autor Byung-Chul Han, no sentido de que esquecemos e anulamos as diferenças dos outros que nos cercam.

Por fim, o que podemos dizer é que as pessoas buscam pertencimento e conexão, assim como, significado frente a esses ideais. Procuramos entender quem somos no mundo e dar sentido a isso, sobretudo em relação ao grupo que nos identificamos. Dessa forma, percebemos que as temáticas da individualidade, das diferenças, da formação de comunidades, identidades e estereótipos geracionais merecem uma análise mais profunda. Também, precisamos discutir mais acerca da juventude como forma de agir no mundo e as “novas” noções de liberdade frente às mudanças globais, locais e geracionais constantes.

Curtiu nosso conteúdo sobre o Youth Mode? E você, como encara a construção da sua identidade e a sua liberdade? Para conferir o primeiro Painel Orbi, é só clicar aqui. Até a próxima!

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